CABINDA: A INQUIETAÇÃO DE LUANDA E A INEVITÁVEL REDENÇÃO DA SUA DIÁSPORA

Na geopolítica dos recursos da África Central, há verdades que o regime de ocupação do MPLA tenta, sem sucesso, enterrar sob toneladas de crude e discursos de unidade nacional e a mais  gritante de todas é que a questão de Cabinda que não é um mero dossier de segurança do passado, mas uma ferida aberta no coração de Angola. E enquanto o regime do MPLA persistir na ilusão de que pode sufocar a identidade de um povo através da intimidação, continuará a tropeçar no próprio fantasma que criou.

Por Osvaldo Franque Buela (*)

O mais revelador nesta dinâmica de poder não é o confronto com os grupos armados, há muito remetidos à assimetria da selva , mas a perseguição obsessiva e silenciosa movida contra a diáspora cabindense no exterior.

Por que razão um regime dotado de um poderoso aparelho de inteligência e diplomacia teme cidadãos, estudantes, académicos e famílias que vivem a milhares de quilómetros e se afirmam estritamente apolíticos?

A resposta é tão simples quanto desconfortável: para o MPLA, o “Cabindense apolítico” é uma impossibilidade lógica e uma ameaça existencial. Por outras palavras, o medo da verdade ou quando o apolitismo ameaça o rregime

Num sistema que construiu a sua legitimidade económica sobre a exploração predatória do petróleo offshore de Cabinda, transferindo a riqueza do enclave para os cofres e elites do MPLA enquanto a população local padece na miséria e na falta de infraestruturas básicas, a mera existência de uma identidade cabindense consciente e articulada é um acto de acusação.

Quando uma associação na diáspora promove a cultura, documenta violações de direitos humanos ou simplesmente organiza apoio comunitário, como tinha tentado fazer a IPAN (Iniciativas Pan-Africanas) e impedido pela embaixada angolana em Paris, ela não está a fazer política partidária; está a fazer algo muito mais perigoso para o regime: está a manter viva a memória e a dignidade de um povo.

O ostracismo, a vigilância consular, as listas negras e a chantagem sobre os familiares que permaneceram no território não são sinais de força do MPLA. São reflexos de uma paranoia estrutural. O MPLA do incompetente João Lourenço sabe que a narrativa da “Angola una e indivisível”, imposta sem um diálogo inclusivo ou respeito pelas especificidades históricas e jurídicas de Cabinda, é um castelo de cartas que não resiste à verdade dos factos.

Perante um regime que recusa o diálogo e criminaliza o afeto pela terra natal, a diáspora cabindense não pode dar-se ao luxo de se remeter ao silêncio ou à resignação. O tempo da lamúria e do protesto estéril deu lugar à era da inteligência estratégica. Rasgar o Cerco deve tornar-se o foco do trabalho estratégico na agenda da diáspora de Cabinda

Para contornar o muro da censura e da marginalização, a luta da diáspora deve assentar em vários pilares inegociáveis tal como a Internacionalização sem tréguas, pois o diferendo de Cabinda não é um “problema interno” de Angola, por muito que a diplomacia do petrodólar o tente vender.

A diáspora tem o dever moral e político de ocupar os espaços multilaterais do Conselho de Direitos Humanos da ONU, às instâncias da União Africana e da União Europeia. Levar relatórios fundamentados, denunciar a militarização do enclave e expor a pilhagem ambiental é a arma mais eficaz contra o esquecimento.

Para desarmar o argumento fácil da “subversão”, a ação comunitária deve adotar a linguagem universal do desenvolvimento e dos direitos fundamentais. Defender a água potável, a educação de infância, a saúde materna e a proteção da biodiversidade em Cabinda através de parcerias com agências internacionais não é concessão ao regime, é erguer um escudo diplomático que o MPLA e seu incompetente Presidente não podem derrubar sem pagar um custo reputacional devastador.

A verdadeira autonomia começa na sobrevivência e no empoderamento das populações locais, e para tal a diáspora deve ser o motor financeiro e tecnológico que alimenta o empreendedorismo, a formação dos jovens e a resiliência das famílias em Cabinda, contornando os canais estatais viciados e criando redes de solidariedade inquebráveis.

O futuro não se pede, conquista-se

O regime do MPLA pode continuar a gastar recursos imensos a vigiar redes sociais, a coagir ativistas e a tentar isolar os cabindenses no estrangeiro. Mas a história ensina que nenhum poder assente na espoliação e na negação da identidade dura para sempre.

O ostracismo sofrido pela diáspora cabindense é a prova cabal de que a sua voz incomoda e a sua existência importa. Cabe agora a essa mesma diáspora  transformar a dispersão geográfica numa teia global de influência, dignidade e resistência.

Cabinda não é uma província calada; é uma nação de consciência viva que recusa ser apagada.

Assumo esta visão com força e energia.

(*) Escritor panafricanista, refugiado político em França

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